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Foto do escritor: Nicole D'Oshun
Nicole D'Oshun
30 de mar.
10 min de leitura

BELMIRO NUNES DE MORAES - UMA VIDA DE CARIDADE

por Juarez Nunes da Silva 

 2º Lugar - 49º Concurso Anual Literário de Caxias do Sul - RS - 2015 _________________________________________________________________________________

          Era o ano de 2008, o dia...  eu não lembro, mas certamente era um sábado. Eu estava com a minha prenda num baile gaúcho de uma sociedade em Flores da Cunha/RS e antes que o conjunto musical iniciasse a festa, aproximou-se de mim um casal maduro, cujo homem eu conhecia do meio profissional. Ele me  apresentou a sua esposa e me disse que ela tinha um grande desejo de falar comigo. Então, eu perguntei o motivo e ela assim me respondeu:

          ---- Eu quero dar um abraço no neto de Belmiro Nunes de Moraes, que eu conheci na minha juventude, na região de Capão Alto, em São Francisco de Paula. O teu avô foi uma pessoa de grande bondade, e que dedicou a sua vida inteira recebendo as pessoas que precisavam curar os seus males ou receber uma palavra de ânimo.

          Fiquei surpreso com o pedido da senhora, mas prontamente agradeci as palavras dirigidas ao meu avô e lhe concedi o abraço pedido. Desde então, jamais esqueci deste momento, o que me enche de muito orgulho.

          O meu avô dedicou toda a sua vida curando as pessoas, pois tinha faculdades mediúnicas desenvolvidas e este dom não podia ser desperdiçado. Minha avó Conceição e minha mãe Erotildes, diziam que a casa estava sempre lotada de gente esperando o atendimento, que iniciava no nascer do sol e se estendia até o anoitecer e, para aqueles que vinham de longe, havia sempre um lugar nos galpões para o descanso.

          Eu não tive a oportunidade de conhecer o meu avô, mas ele era um daqueles tipos guapos nascidos nas partes altas de Rolante/RS, próximas a São Francisco de Paula/RS. Ele era mulato, pois seus pais eram de tez escura do lado paterno e tez clara, do lado materno. Mesmo que tenha dedicado a sua vida inteira como missionário de cura, entregava-se regularmente nas lides campeiras, principalmente conduzindo tropas de mulas carregadas de produtos produzidos pela família, que era numerosa, no intuito de trocar por gêneros de primeira necessidade. O homem andava sempre bem trajado, envergando uma indumentária gaúcha, com bombachas de favos, botas russilhonas e chapéu tapeado na testa. O que chamava a atenção no meu avô, era o fato de sempre usar um pala de seda branco e um lenço chimango no pescoço, aberto nas costas.

          O vovô Belmiro tinha uma tropa de 14 mulas de encilha e de cargueiros e, quando saia em comitiva, sempre levava o seu grande amigo Jangota. Eram amigos de churrasquear no mesmo espeto e algumas vezes, os dois foram vistos dando muitas risadas e até chorando juntos. Era uma amizade firme como palanque mestre de alambrado novo.

          A região de Capão Alto pertence ao município de São Francisco de Paula/RS e naqueles tempos, nos anos 40, não havia estradas transitáveis para carretas ou carroças. O jeito era andar no lombo de mulas, que tinham mais resistência do que os cavalos para andar em carreiros pedregosos, para subir ou descer em caminhos estreitos. É sabido que onde o meu avô chegava para fazer as trocas de mantimentos, as pessoas se aglomeravam para terem uns minutos de conversa com o famoso benzedor e ele, ali ficava até que o último vivente fosse atendido. Não havia nenhuma exigência de pagamento da consulta, mas muitos traziam algum agrado para o meu avô, desde alimentos, utensílios, até pequenos animais domésticos que, normalmente, ele repassava aos mais necessitados.

          Os trabalhos de lavoura, roça e trato com os animais domésticos e o gado, além da atenção aos filhos, que eram 10 gurias e 2 guris, eram de responsabilidade da minha avó Conceição Ferreira de Miranda. Ele sempre exigia que a hora da Ave Maria fosse respeitada, concitando a todos que rezassem o terço. Ele sempre alertava que o "Salve Rainha" não podia ser rezado mais de uma vez por dia, mas a oração da mãe de Deus, essa sim, podia ser repetida quantas vezes fosse preciso.

          Não se viu o vovô Belmiro nas lides diárias  da família, até por que ele era requisitado em tempo integral para atender as pessoas que enegreciam a frente da casa. Vinha gente a pé e no lombo de mulas e burros, que chegava a faltar vareijão para amarrar os animais. No entanto, ele cultivava uma pequena horta, de onde colhia folhas, ramos e raízes para a prática de uma rude medicina, com o acompanhamento e costado de uma plêiade de espíritos de luz nesta faina de caridade absoluta. Sabe-se que ele era cristão e obreiro do kardecismo. Não se sabe de quem ele recebeu este sincretismo da arte de benzer, misturando a religião católica e o espiritismo.

          O meu avô tinha uns 20 anos a mais do que a minha avó e a cada ano que passava, ele parecia ficar mais velho, em razão do desgaste que sofria nos atendimentos até altas horas e também por que, depois dos serviços dedicados as pessoas, ele passava horas lendo livros volumosos, sob a luz de grandes velas de sebo, cujo teor ninguém teve acesso e que, depois do seu desencarne, tomaram destino ignorado e a minha avó não sabe para onde ele enviou as obras ou se foram destruídas por ele.

          O vovô era acompanhado por guias espirituais que lhe mostravam a forma de curar as pessoas que chegavam à sua casa. Certa feita, chegou um homem as pressas no potreiro do meu avô, e antes que ele fosse visto chegando, o vovô saiu à frente da casa e ficou à sua espera. A mula do vivente chegou com a tábua do pescoço vertendo suor da correria desenfreada e o homem foi dizendo quase a meio-forgo:

          ---- Seu Belmiro.... vim lhe buscar para socorrer um parente meu que está muito mal, entrevado encima de uma tarimba há muitos dias. Acho que está para alumiar as maçanetas, e logo!

          Então, meu avó com a calma e doçura que lhe era peculiar, respondeu:

          ---- Descanse um pouco, beba água e dê água para o teu animal. Nada posso fazer, pois o teu parente já se apresentou para mim há poucos instantes. Encaminhe o seu enterro. Ele está bem, e eu  já tomei as providências para que ele seja  acompanhado na sua nova jornada.

          Ele realizava curas das mais diversas, um pouco diferente das práticas das benzedeiras, que faziam uso de tesouras, ramos de arruda, copo d'água, agulha e linha. Ele se aproximava das pessoas e com as mãos postas, fazia uma irradiação na fronte ou sobre a cabeça, às vezes, sobre determinados locais do corpo da pessoa doente. Depois, indicava alguma beberagem com plantas específicas, como raiz de cabelinho de porco, raiz de salsa, cipó pata de vaca, aipo, quina, cancorosa, raiz de picão, quebra-pedra, malva, catinga de mulata, tansagem, mentruz, araçá do campo, erva de touro, arnica, carqueja branca, gervão, e muitas outras da farmacologia rústica. Se o paciente não conhecesse a erva, então ela apanhava da sua horta e já despachava o vivente. Interessante é que ele não podia benzer ou realizar cura dos seus descendentes. Se preciso, os familiares tinham que procurar outro benzedor.

          O vovô era um homem que ficava muito quieto em alguns momentos, talvez ouvindo os seus guias ou percebendo movimentações das entidades ao seu derredor, boas e más. Então, ele pedia para que os filhos se aquietassem por instantes. Logo, ele puxava uma oração ou dava conselhos de comportamentos que deviam ser seguidos, por certo, para evitar influências do mundo invisível. Aliás, ele sempre dizia que os espíritos influenciavam muita na vida dos viventes na terra. E o campo, natureza em plena manifestação, parecia ser o palco ideal para que os mistérios do eterno se fizessem presentes. O gaúcho, sim senhor, sempre foi um tipo de gente dotado de coragem aos extremos. Mas, quando se trata de falar em aparições, assombros, então, ele se recolhe, não zomba, não enfrenta e apenasmente,  respeita.

          Certa feita, as gurias, entre elas, a minha mãe Erotildes, estavam voltando dos fundos do potreiro encordoadas com teta de porca, seguindo um carreiro que chegava na casa. Já era quase noitinha, próxima da hora da Ave Maria, e pouco se enxergava naquele lusco-fusco. Quando passavam perto do arroio que descambava numa pequena queda d'água, viram uma senhora já de idade avançada, toda de  branco caminhando próxima a elas. Aquilo foi uma correria medonha, como se tivessem um bando de gansos no seu encalço, em direção a casa. Quando chegaram à porta, foram caindo para dentro do baldrame uma sobre a outra, assustadas e numa gritaria de dar medo. O vovô  veio ver o que se assucedia e o relato foi se destrinchando. Já sabendo do que se tratava, num andar alevianado, ele foi até a porta, levou uns pares de segundos bombeando a escuridão, e então disse:

          ---- Se acalmem, é só a vovó Francisquinha que tá passando por ali. Ela já tá indo embora.

          Era a mãe do vovô Belmiro. Pura verdade! Recobrada a calma das meninas, ele sentou-se num banco encostado na parede e chamou todos e mandou que se sentassem em volta dele e foi falando:

          ---- Nós repartimos o mundo véio com os vivos e os espíritos de gente que já viveu por aqui. Mas lhes digo: tem lugar de sobra para os dois. Porém, há que se respeitar certas horas do dia e da noite,  para não vermos aparições que não queremos e nem há necessidade de ver. A cada seis horas, as almas fazem os seus vorteios. É pelas seis da manhã, pelo meio-dia, pelas seis da tarde e na meia-noite. Por que é que a mãe de vocês ralha com todos pra não botar o pé pra fora de casa em determinadas horas? Por que são as horas que as almas fazem os seus cruzes por aí e também o capeta. Sim, o capeta faz o seu passeio buscando almas desguaritadas e gente que não segue o bom caminho cristão. Que hora é  agora? Hora da Ave Maria. Bamos rezar?

          Numa sexta-feira qualquer, todos estavam reunidos ao redor do fogão a lenha, conversando, contado causos de bichos e de gente e eis que se ouve ao longe uma cantarola de vozes femininas. As gurias perguntaram ao meu avô o que era aquela cantiga - muito bonita por sinal -  e ele rapidamente respondeu que eram as bruxas na sua recorrida pelos campos, pedindo que todos ficassem quietos e não fizessem arremedo. Assim, elas iriam passar e nada de mal fariam. No outro dia, os cavalos estavam com tranças nas crinas. Sinal que elas haviam cavalgado neles.

          Na semana santa, o vovô Belmiro tinha um ritual que fazia a família cumprir a risca. E ninguém deixava de cumprir. A partir do Domingo de Ramos, todos tinham que ter uma semana com atitudes voltadas para a adoração a Jesus. E na quinta-feira santa, se preparavam os alimentos e todas as lides da casa e trato com os animais, para que a sexta-feira fosse um dia de recolhimento e reserva. Não se cortava o cabelo, as unhas e a barba. Aliás, não se lidava com instrumentos cortantes para evitar machucados que sangrassem. Não se comia carne que tivesse sangue vermelho. O pão era cortado um dia antes. As vacas não eram ordenhadas, para evitar que saísse sangue dos tetos. Não se olhava no espelho, pois corria-se o risco de ver o demônio. A conversa entre as pessoas era em tom baixo, sem gritos e nem risadas. Já, no sábado, se carneava uma vaca ou uma novilha, e se fazia um assado para ir comemorando  a ressurreição de Cristo que estava chegando.

          Como relatado, o vovô Belmiro usava um lenço chimango, ou seja, de cor branco no pescoço. Por certo, o vovô não era governista e explico o porquê: naqueles tempos, maragatos e chimangos já podiam frequentar os mesmos bolichos e cruzar pelas mesmas estradas, pois a Revolução Libertadora tinha sido em 1923. Vargas, na Revolução de 30 tinha unido os gaúchos. Mas, lá no campo, ainda havia piquetes de chimangos governistas que andavam pelas fazendas e rancherios querendo saber se os homens apoiavam o partido republicano. Caso contrário, tomavam um chá de casca de vaca, eram levados a pé amarrados uns nos outros e emangueirados para levar uma tamina de laço. Quando não achavam os homens, surravam as mulheres e até cometiam excessos. Muitas mulheres tinham o cabelo tosado a facão quando não encontravam os homens, que fugiam para os matos para se esconder e não apanhar da chimangada.

          Pois bem, certa feita, chegou a volante dos chimangos onde morava o meu avô. Enquanto as crianças brincavam em frente dos galpões, meus avós descansavam sentados em frente da casa. O comandante do piquete deu um buenas e pediu para a minha avó onde estava o marido dela. Percebendo o assucedido, ela disse  que o meu avô não se encontrava ali. Os filhos ficaram olhando para o vovô Belmiro sem entender o que acontecia, pois ele estava sentado em frente da casa! Então, os homens logo se foram e nada fizeram para a minha avó e os filhos. Os chimangos não enxergaram o vovô Belmiro, que devia estar sob proteção espiritual, como todos ali. Se ele fosse chimango, então se apresentaria. Mas não era. Ele só gostava de andar de lenço branco, mesmo!

          Um certo dia, meu avô reuniu a família e disse que logo ele não estaria mais ali. Ninguém entendeu nada, somente a minha avó. Ele a chamou para um canto e disse que não gastasse nada com ele para a sua cura, pois o seu destino estava traçado. O tempo já tinha judiado muito dele, pois o rosto marcado e os cabelos brancos já denunciavam o cansaço de anos. Ele chamou uma das filhas para passar os seus dons, mas ela não aceitou. E logo, ele ficou doente e a avó Conceição começou a vender o gado para juntar dinheiro e buscar recursos na medicina povoeira. Como não havia estradas, ela ajustava alguns peões para levarem ele de padiola para fora dali e buscar o socorro dos médicos. E o vovô Belmiro sempre alertava ela: "não venda o gado, tu tens toda esta criançada pra criar. Eu não tenho cura". Mas a avó não se convencia e fez de tudo para salvá-lo. E o dia derradeiro se fez presente: o vovô desencarnou. O seu tempo de caridade tinha findado e a sua missão estava cumprida.

          Tempos mais tarde, surgiu um homem conhecido por “Gegê”, que fazia as suas curas aos moldes do meu avô. Muitos anos se passaram e um dia qualquer, minha mãe Erotildes, uma vizinha sua amiga e minha irmã Ronida, foram até a  região de Chapada/RS, onde este benzedor morava. Ao serem recebidas pela esposa do “Gegê”, a mulher disse que ele não podia atender, pois estava descansando dos atendimentos que tinham sido muitos durante o dia. A mulher se prontificou a benzer, pois também tinha o dom. Minha mãe disse que preferia o “Gegê”. Eis que uma voz lá de dentro gritou: "pode deixar, mulher. Essa irmã que chegou aí eu tenho que atender. Só eu que posso atende-la!"

          Bueno, minha mãe entrou e o “Gegê” apareceu. Ele fez uma oração, conversou com a minha mãe e então ele segurou a sua mão e disse:

          ---- Tu não quer falar com o teu pai? Ele está aqui. Por isso é que eu estou te atendendo. Ele é o meu guia.

          Minha mãe, emocionada, prontamente respondeu:

          ---- Não posso falar com ele, Seu “Gegê”,  pois não estou preparada...

          Eis algumas passagens da vida do meu vovô Belmiro, cujo sangue corre também em minhas veias e de quem tenho muito orgulho pela bondade que semeou enquanto viveu e continuou ainda fazendo bondade no mundo espiritual. Obrigado, vovô Belmiro!

 


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