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O que é Axerê no Batuque do RS?

Foto do escritor: Nicole D'Oshun
Nicole D'Oshun
30 de mar.
6 min de leitura

Atualizado: 22 de jul.


Axerê no Brasil

Uma leitura simbólica e litúrgica da semiótica do axé em movimento

Texto por: Nicole D'Oshun


Falar de Axerê é tocar um dos campos mais delicados, vivos e menos compreendidos da religiosidade afro-brasileira. No Batuque do Rio Grande do Sul, sobretudo, o termo atravessa a experiência do transe, da linguagem ritual, da inversão simbólica e da passagem entre estados de presença. Ao mesmo tempo em que muitos o explicam de forma simples, como se fosse apenas o Orixá em estado infantil, outras leituras mostram que o fenômeno é bem mais profundo, mais complexo e mais revelador da própria inteligência da tradição.


Um dos textos mais importantes para essa discussão é “Quem é o Axerê?”, de Hendrix Silveira, que problematiza a leitura popular do axerê e propõe uma análise epistemológica do seu comportamento. Esse texto continua sendo uma referência importante para quem busca compreender o tema com mais seriedade, sem reduzi-lo a caricatura, folclore ou repetição automática.


O caminho mais responsável não é o da crendice vazia, nem o da exposição imprudente do fundamento. O caminho mais sério é o da reflexão cuidadosa. Falar de Axerê não é revelar o que pertence ao resguardo litúrgico, mas reconhecer que existe, na experiência batuqueira, uma gramática do sagrado que também se manifesta no corpo, na voz, no gesto, na desorganização aparente e na reorganização profunda do axé.

Nesse sentido, o Axerê não é só “uma fase” do transe. Ele pode ser compreendido como signo ritual, como campo de linguagem e como pedagogia do mistério.


O Axerê entre infância, deslocamento e passagem


A leitura mais difundida afirma que o Axerê seria o Orixá em condição infantil. Por isso, em muitas casas, surgem brinquedos, adereços, badulaques e um tratamento semelhante ao que outras tradições dariam ao Erê. Essa leitura não nasce do nada: ela se apoia no comportamento observado, na leveza, na fala alterada, nos gestos que lembram infância e no enfraquecimento momentâneo da solenidade rígida da ocupação.


Essa interpretação aparece em autores citados com frequência no debate, como Norton F. Corrêa, em O batuque do Rio Grande do Sul, Mônica Buonfiglio, em Orixás!, e Pierre Fatumbi Verger, em Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Em comum, essas leituras registram um comportamento que se parece com o infantil, mas nem sempre afirmam que o Axerê seja literalmente uma criança.


E é justamente aí que o tema se torna mais interessante.


Há outra leitura, igualmente importante, que observa o Axerê não como “criança” em sentido literal, mas como um estado intermediário, um entre-lugar ritual em que o corpo, a linguagem e a percepção operam por deslocamento. Nessa chave, o Axerê não é simples regressão: é reconfiguração. Não é apenas infantilidade: é trânsito. Não é somente doçura: é reorganização simbólica.


Essa linha também aparece em textos como “O Axêro na tradição do Batuque” e “Os Axêres”, que ajudam a perceber como diferentes casas e tradições elaboram esse momento como passagem entre a ocupação e o retorno ao estado comum.


A semiótica do Axerê

Se olharmos o Axerê pela semiótica do rito, ele aparece como um sistema de inversões. Diz-se frente quando é fundos. Diz-se em cima quando é embaixo. Toma-se uma palavra por outra. Muda-se o tempo verbal. Alteram-se os referentes. Rompe-se a lógica ordinária da linguagem.


Essa desordem aparente não é ausência de sentido. Ela é, na verdade, produção de sentido ritual.


No texto “Quem é o Axerê?”, Hendrix Silveira chama atenção para a hipótese de aproximação com a expressão iorubá asiwère, registrada por Verger, indicando alguém que “porta-se como um louco”. Nessa leitura, o Axerê carrega menos a ideia de infância literal e mais a ideia de deslocamento de linguagem, inversão de comportamento e suspensão da racionalidade comum.


Também por isso o Glossário dos Axêres / Axêros se torna uma peça curiosa de apoio: ele mostra como o vocabulário próprio do Axerê foi sendo reconhecido e transmitido no universo africanista gaúcho, reforçando que esse estado não se resume a um gesto corporal, mas envolve também fala, expressão e código ritual.


O Axerê quebra a sintaxe ordinária para instaurar uma sintaxe do sagrado. Ele desautomatiza o olhar de quem assiste. Ele suspende o costume. Ele obriga a comunidade a reconhecer que o sagrado nem sempre se expressa em linha reta.


O contexto quântico-simbólico do Axerê


Quando aqui propomos uma leitura quântico-simbólica, não estamos tentando importar física para dentro do terreiro de forma forçada. A palavra “quântico”, neste texto, funciona como imagem de um campo vibracional: uma maneira de pensar o Axerê como estado de oscilação, trânsito, reorganização e passagem.


O que antes estava condensado numa presença intensa se redistribui. O que antes era autoridade veemente se torna distensão, respiração, mobilidade, socialidade.


Nessa perspectiva, o Axerê pode ser compreendido como um estado de reacomodação do axé no corpo. Depois da força rigorosa da ocupação, há uma etapa em que o organismo precisa relaxar, normalizar funções, reintegrar corpo, gesto, alimento, respiração e convivência. Essa leitura aparece de forma muito clara no texto de Hendrix Silveira, quando o autor afirma que, nesse estado, o Orixá pode comer, beber, se descontrair e socializar-se novamente. A formulação também dialoga com a tradição bibliográfica de Norton F. Corrêa e Pierre Verger.


Assim, o Axerê não é um detalhe folclórico do rito. Ele é uma tecnologia sagrada de transição.


O contexto litúrgico:


No plano litúrgico, o Axerê ensina que o sagrado não se resume ao auge da manifestação. Há também verdade ritual no depois. Há mistério no afrouxamento. Há fundamento no intervalo.


Essa condição aparece de forma muito bonita no registro atribuído a Mãe Ester de Iemanjá, citado no debate sobre o tema: o Axerê seria “o mesmo santo”, mas num estado que está “nem cá nem lá, nem é mais orixá, mesmo, nem é gente”. Essa formulação é preciosa porque mostra que o Axerê pertence ao entre. E esse entre não é falha. É doutrina viva do corpo ritual.


Por isso, o bom batuqueiro não é aquele que repete fórmulas prontas sobre o Axerê, mas aquele que reconhece nele uma lição sobre a própria natureza do axé: força que chega, ocupa, reordena, desloca, relaxa e reinscreve.

Nessa perspectiva, o corpo no terreiro não é apenas veículo. Ele é arquivo, é texto, é signo e é fundamento.


ASELU: àṣẹ em movimento, àṣẹ em jogo, àṣẹ em expressão


Como chave poética deste texto, podemos nomear ASELU como imagem do axé que circula, move, afrouxa e se expressa. Não como definição filológica fechada, mas como fórmula interpretativa.


Àṣẹ que toca

Àṣẹ que solta

Àṣẹ que brinca

Àṣẹ que reorganiza.


Se o Axerê tensiona a linguagem, desloca a lógica ordinária e restitui o corpo à convivência depois da intensidade do sagrado, então ele pode ser lido como uma qualidade do axé em estado móvel. Não apenas força, mas força em trânsito. Não apenas presença, mas presença em rearticulação. Não apenas rito, mas rito que se prolonga em gesto, em inversão, em fome, em descanso, em socialização e em retorno.


Nessa chave, ASELU pode ser entendido aqui como nome poético da semiótica do Axerê: o axé que não se esgota na solenidade, porque também se manifesta no jogo ritual do retorno.


Conclusão


O Axerê, no Brasil e especialmente no Batuque do Rio Grande do Sul, merece ser tratado com mais profundidade do que costuma receber. Entre a leitura popular da infância sagrada, a hipótese linguística ligada a asiwère e a compreensão antropológica do estado intermediário, o que se revela é um fenômeno rico, complexo e altamente simbólico.


O Axerê pode ser lido como semiótica do entre, como pedagogia da passagem e como manifestação do axé em reorganização. Ele não desmonta o sagrado: ele mostra que o sagrado também sabe afrouxar, respirar, inverter, brincar e retornar.


Que saibamos estudar o Axerê sem reduzir seu mistério. Que saibamos nomear sem profanar. Que saibamos pensar sem romper o fundamento.


ASELU. Àṣẹ em movimento. Àṣẹ em expressão. Àṣẹ que retorna sem deixar de ser sagrado. Matéria por: Nicole D’Oshun


Fontes e referências


Bibliografia com links


BENISTE, José. As águas de Oxalá: (àwon omi Ósàlá). 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.Catálogo / preview: Google Books

BUONFIGLIO, Mônica. Orixás! São Paulo: Oficina Cultural Mônica Buonfiglio, 1995. 183 p.Catálogo / referência: Touché Livros

CORRÊA, Norton F. O batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1992. 289 p.Catálogo bibliográfico: WorldCat Outra edição / preview: Google Books

SILVEIRA, Hendrix. A cultura religiosa dos iorubás: do surgimento à diáspora. Porto Alegre: Monografia/FAPA, 2004.Espelho público em PDF: PDF público

VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. 5. ed. Salvador: Corrupio, 1997. 295 p.Catálogo / preview: Google Books


 
 
 

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