Ritos de Renovação | Orò Ọ̀sẹ́
Atualizado: 22 de jul.
Àgò yé ẹ̀gbọ́n.
Todas as tradições de matriz africana, independente de suas fundamentações — Batuque, Candomblé, Umbanda e outras — realizam ritos anuais de renovação do tempo.
Esses ritos são chamados de Ọ̀sẹ́ (pronuncia-se óssé). Tradicionalmente, esse rito é realizado em três partes: purificação, reconstrução dos altares, ou das mesas e renovação das imolações ou consagrações. Nesta postagem, falaremos sobre a purificação.
Há algum tempo, na época em que o Orkut era muito mais ativo do que o Facebook, surgiu um questionamento em uma das comunidades de discussão do Batuque: “A limpeza de final de ano é importante ou é apenas o 13º salário do Pai ou da Mãe de Santo?”
Talvez esse seja um questionamento que já tenha passado pela cabeça de muitos iniciados. - e continua passando.
A ignorância — e a consequente especulação — a respeito da importância da limpeza de final de ano se deve a alguns fatores muito presentes em nosso tempo. Entre eles, destaco:
a falta de formação afro teológica;
o sistema capitalista;
a relação mercantil — e não religiosa — que, cada vez mais, tem se instalado nas relações humanas dentro da comunidade.
A falta de formação Afro teológica
A falta de conhecimentos afro teológicos, ou seja, a ausência de um conhecimento teórico no qual as tradições religiosas e instituições tanto católicas quanto de matriz africanista sejam as norteadoras teológicas de suas próprias práticas, dificulta muito a compreensão e a explicação dos nossos ritos.
No passado, o conhecimento era sobretudo iniciático. Com o passar do tempo, perguntas começaram a ser feitas, e respostas precisaram ser dadas. Contudo, muitos de nossos ancestrais levaram essas respostas para o túmulo, deixando-nos órfãos de um conhecimento teológico sistematizado. E, como órfãos, procuramos pais adotivos.
Enveredamos, então, pela teologia católica e, mais tarde, pela espírita, a fim de encontrar respostas para questões que nos são profundamente caras. Hoje, porém, temos maior acesso aos conhecimentos africanos, e isso nos permite elaborar a nossa própria teologia, sem depender de subterfúgios alheios à África.
A apreensão desses conhecimentos teóricos é tão importante quanto a aprendizagem prática, porque é ela que dá sentido à própria prática. Um sentido verdadeiramente nosso.
O sistema capitalista e a dessacralização das relações
O sistema capitalista, que atravessa a sociedade e invade os terreiros com seus valores monetários, estabelece uma lógica na qual o valor de algo passa a ser medido pelo seu preço. Isso desumaniza as relações entre as pessoas e destitui nossos ritos de sua sacralidade, tornando-os mecânicos, robotizados.
O ato de pagar pela realização de ritos, que é uma prática secular africana, é ressignificado em nosso tempo pelo capitalismo, onde o dinheiro passa a valer mais do que as pessoas — e, muitas vezes, mais até do que o próprio sagrado que deveria sustentar a prática.
Nesse sistema, o sagrado deixa de ser o fim e passa a ser apenas o meio pelo qual se alcançam certos objetivos, entre eles, para muitos, o ganho financeiro.
Quando a comunidade vira mercado
Nós fazemos parte de uma comunidade que mantém e reproduz valores civilizatórios africanos, em muitos aspectos opostos aos valores da civilização ocidental. No entanto, vivemos cercados por pressupostos civilizatórios estruturados pelo capitalismo. E, assim, muitas vezes acabamos estabelecendo nossas relações a partir dessa lógica.
Isso acontece especialmente quando alguém “entra” para a tradição, mas não se converte verdadeiramente a ela.
Nessa mentalidade, o sacerdote passa a ser visto como um prestador de serviços, enquanto o filho ou filha de santo assume a posição de cliente. A partir daí, a relação comunitária passa a ser percebida como uma relação mercantil: paga-se para obter benefícios.
Esse é o tipo de filho ou filha que se recusa, por exemplo, a trabalhar no terreiro em datas festivas, sobretudo quando esse trabalho envolve tarefas que a sociedade capitalista considera subalternas — como limpar ambientes, banheiros, panelas ou organizar o espaço sagrado.
Para esse tipo de pessoa, “entrar” e “sair” de uma comunidade têm o mesmo peso. Pegar suas obrigações e ir embora não se relaciona ao estabelecimento de um vínculo com o sagrado daquele lugar, mas à posse de algo que se pagou para ter.
É justamente a conjunção de todos esses fatores que torna possível a pergunta feita, há anos, naquela comunidade do Orkut.
A importância sagrada da limpeza de final de ano
A limpeza de final de ano é um rito sagrado importantíssimo para nós, pois nos purifica e redime algumas de nossas falhas ao longo do ano, para que possamos entrar no próximo ciclo renovados, limpos, purificados.
Por meio da limpeza, nos tornamos novamente novas pessoas. Nosso tempo é restituído. Entrar em um novo ano sem ter realizado essa limpeza é dar continuidade às falhas acumuladas. Esse rito é a garantia de que começaremos o novo ciclo anual espiritualmente purificados.
A limpeza, portanto, não é um detalhe, nem um excesso, nem um pretexto. Ela é parte fundamental do Ọ̀sẹ́, do rito de renovação do tempo, e tem profundo valor espiritual, comunitário e litúrgico.
Texto-base: Prof. Dr. Bàbá Hendrix Silveira https://est.academia.edu/HendrixSilveira Postado originalmente em: sábado, 15 de novembro de 2014
Revisão: @nicoledoshun


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